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Novamente Geografando

Este blog organiza informação relacionada com Geografia... e pode ajudar alunos que às vezes andam por aí "desesperados"!

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Resistir em Chernobyl: há uma comunidade que recusou abandonar a zona de exclusão

Mäyjo, 26.04.16

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O maior acidente nuclear da história da humanidade mudou a vida de milhares de pessoas que viviam nas imediações da central de Chernobyl. A população da região foi evacuada e definida uma zona de exclusão. Mas desde há 30 anos há quem resista à ameaça de um veneno radioativo invisível.

Aos 87 anos, Maria Petrovna é um dos exemplos de persistência numa zona onde um acidente ditou o destino da região ao quase abandono. Maria tinha 57 anos quando, em 1986, um acontecimento mudou o rumo da sua vida. Mas só por uns meses. Como a restante população da zona de exclusão, Maria Petrovna teve de abandonar a sua casa, a 25 quilómetros da central nuclear, a 4 de maio. Só em Opálchichi, terra de Maria, foram evacuadas cerca de 600 pessoas.

Voltou à casa na primavera seguinte. “Quando voltei dei saltos de alegria, as lágrimas caíam-me pela cara e a primeira coisa que fiz foi beijar o chão do meu jardim”, afirmou em entrevista à agência espanhola EFE. “Nasci aqui em 1929 e vivi aqui a minha vida inteira”, acrescentou. Maria Petrovna lembra-se bem dos momentos vividos nesses dias de abril de 1986. “Avisaram na rádio que tinha explodido algo na central de Chernobyl e que teríamos de ser evacuados… Chegaram com alguns equipamentos para medir a radiação e com uns autocarros”, acrescentando que “disseram para levarmos poucas coisas. No dia 4 de maio fui transferida para outro local. Comecei por ajudar ali, com os animais. Passei lá o inverno mas na primavera seguinte estava de volta a casa, a trabalhar na minha horta”.

Não voltou sozinha. Com ela regressaram cerca de 150 pessoa. Mas 30 anos depois, só restam quatro.

 

Mais do que um acidente nuclear, um lugar a que se chama “lar”

Maria Petrovna faz parte das 1500 pessoas que decidiram regressar à zona de exclusão nos anos seguintes ao acidente, onde se instalaram em 12 aldeias diferentes. Mas 30 anos depois restam 156 pessoas divididas em cinco aldeias.

Em 2010, quando se assinalava 25 anos desde a explosão do reator 4 da central nuclear, a norte-americana Holly Morris, descolou-se à Chernobyl com a intenção de fazer um documentário sobre o maior acidente nuclear de sempre. Falhou nesse ponto. "Eu achei que este seria um documentário sobre Chernobyl e a radiação e, para surpresa minha, tornou-se um filme sobre a importância do lar", explicou à BBC.

“The Babuskas of Chernobyl” é o resultado da sua convivência com a comunidade de mulheres que habita na zona de exclusão.

Entre elas está Hanna Zavorotyna que partilhou a sua história. Hanna foi uma das pessoas evacuadas, mas a sua nova casa não era o seu lar. Voltou e com ela os soldados do exército ucraniano. "Hannah contou-me que se escondeu nos arbustos para poder voltar. Outras pessoas disseram que passaram pelos soldados e afirmaram “dê-me um tiro e cave uma cova se não quer que eu fique'", disse Holly Morris. "Houve uma altura em que os oficiais desistiram”, acrescentou, alegando que quem ficava poderia acabar por morrer mas certamente seria mais feliz.

Segundo Holly Morris, há cerca de 100 mulheres a viver na zona de exclusão. Os maridos foram morrendo ao longo dos anos. “Aqui a vida nunca parou, a natureza assumiu o controlo. Está tudo como antes. Eu não vou para lugar nenhum, nem com uma arma apontada à cabeça", partilhou Valentyna Ivanivna, uma das protagonistas do documentário que acrescentou “a zona de exclusão não é uma prisão. Em Kiev eu teria morrido há muito tempo. O ar lá é muito pior".

Mas nem tudo é fácil. Para sobreviveram numa terra envenenada, estas pessoas dependem de familiares que lhes garantem os mantimentos. É o caso de Maria Petrovna que, além de viver da sua pequena pensão e de contar com a ajuda dos guardas florestais da região, a filha e o genro trazem mantimentos de Kiev, segundo a EFE.

Há pouco tempo esteve na capital ucraniana por estar doente. A filha tentou convencê-la a ficar, sem sucesso. “Até o médico me disse que o melhor lugar para mim é aqui, que em qualquer outro lugar morreria”, concluiu.

 

in: 24.sapo.pt